“Precisamos ir além do digital de sempre”

Há duas décadas acreditamos que mais telas significam mais educação. Frank Van Cappelle, responsável global por Educação Digital no UNICEF, prefere duvidar dessa ideia. A partir da Finlândia, onde fica a sede do Global Learning Hub do UNICEF, ele alerta que passamos anos digitalizando sem aprender grande coisa. Sua receita soa simples: menos fetichismo tecnológico, professores mais bem preparados e ferramentas que cheguem até mesmo a lugares sem acesso à internet. Ele fala de inteligência artificial “desconectada” e de devolver humanidade ao aprendizado. Sua organização não pretende revolucionar tudo, mas sim trazer um pouco de bom senso ao debate: que a tecnologia sirva às crianças, e não o contrário.

“Precisamos ir além do digital de sempre”

A educação vem há anos perseguindo seu próprio espelhismo digital. A cada década promete-se um milagre e, como costuma acontecer, os milagres não chegam. Por isso, é refrescante, pela primeira vez em muito tempo, ouvir alguém pedir para diminuir um pouco o ritmo.

Antes de entrar em algoritmos ou telas, Van Cappelle expõe a dura realidade. “272 milhões de crianças estão fora da escola, e esse número aumentou recentemente.” O dado seguinte também não convida ao otimismo: 70% das crianças de dez anos em países de baixa e média renda não conseguem ler com compreensão. A partir daí, qualquer conversa sobre uma revolução tecnológica parece, no mínimo, precipitada.

O diagnóstico não é bom (embora não seja nenhuma surpresa): “O que fizemos nos últimos 20 anos não funcionou”. Muito investimento e pouca melhoria. O erro, segundo ele, foi confundir digitalização com transformação. “O que normalmente vemos é a tradução de pedagogias tradicionais para um formato digital.” O livro transformado em PDF, a aula transformada em vídeo, a avaliação transformada em teste online. Muito pixel, pouco avanço.

Isso não significa renegar a tecnologia, mas sim exigir que ela ofereça algo útil. A tecnologia pode fazer o que o papel não pode: adaptar materiais, traduzi-los para línguas minoritárias, produzir versões acessíveis e automatizar tarefas que deixam professores e gestores escolares exaustos. Além disso, tudo isso pode ser feito sem a necessidade de estar sempre conectado. É aí que surge a ideia mais instigante: a IA que funciona offline.

O UNICEF a utiliza para produzir livros didáticos acessíveis em vários idiomas, reduzindo drasticamente os custos. “Tentamos reduzir os custos em mais de 90%… e já estamos conseguindo”, explica.

O restante recai sobre os professores — e essa é a sua “próxima fronteira”. Por isso, o UNICEF trabalha com eles para construir uma educação digital que não dependa de ter a tela mais recente, mas de ter sentido.

A conversa com Van Cappelle deixa uma impressão estranha e necessária: ele não fala como um guru tecnológico, mas como alguém que já viu anúncios demais sobre o futuro para continuar acreditando neles. Sua defesa de uma tecnologia útil, discreta e subordinada aos professores soa quase contracultural nestes tempos de entusiasmo automático. Talvez seja por isso que ouvi-lo seja tão interessante: ele não quer reinventar tudo, apenas evitar que continuemos repetindo os mesmos erros com dispositivos mais novos.

Aqui você pode assistir à entrevista completa.

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